A Jornada do Herói e os jogos, e os animes, e os filmes…

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Livro

Quem aqui já ouviu falar em “Jornada do herói” ou em “Monomito”? Estes termos tem sido cada vez mais usados hoje em dia, depois de tantos livros e cursos falando a respeito.

Mas, caso isso não lhe seja familiar, dê uma espiada abaixo.

Você já notou como as histórias têm uma certa semelhança entre si? Tanto os filmes que assistimos quanto os livros que lemos ou os games que jogamos tem algo em comum em seus enredos. E, caso você já tenha notado isso, saiba que não foi o único.

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Joseph Campbell no documentário do livro “O Poder do Mito

Há alguns anos um certo antropólogo (que estuda o homem e a humanidade) percebeu que os mitos, lendas e fábulas tinham uma certa similaridade. Ele então resolveu estudar este assunto larga e minuciosamente até que chegou a algumas interessantes conclusões: todas as histórias estavam estruturadas de maneira muito parecida.

Baseado nessa “descoberta”, o antropólogo escreveu, em 1949, o livro “O herói de mil faces“. Seu nome? Joseph Campbell.

Ora, talvez você esteja se perguntando “mas o que isso tem a ver com meus jogos, livros e séries?”.

Possivelmente, tudo.

Este post faz parte da série Jornada do Herói. Veja mais sobre este maravilhoso conceito aqui!

A jornada do Herói

Joseph Campbell dividiu a estrutura das histórias em 19 estágios, mas como seu livro é muito detalhado isso acabou sendo resumido em apenas 12, que, apesar de menor, engloba muito bem as passagens de um protagonista ao longo de seu percurso. Quem fez essa síntese foi Christopher Vogler, um famoso roteirista de Hollywood.

Vou passar estes 12 estágios abaixo para que você os conheça, e falarei um poco de cada um deles. Mas antes disso, gostaria que você pensasse em seu protagonista favorito. Pode ser de um filme, anime, livro, jogo (tanto faz). Agora vamos chama-lo de “herói” (mesmo que ele não tenha atitudes tão heroicas assim). E o uso de “herói” no gênero masculino é mera convenção, pois não importa ser mulher, homem, humano ou qualquer outra coisa (desde que tenha uma história o envolvendo).

Repare como a história deste seu personagem se assemelha com o que verá abaixo:

Estágio 01 – Mundo Comum

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No primeiro volume de Harry Potter, vemos que os maus tratos dos tios é o dia a dia dele

Aqui é onde tudo começa. É quando vemos como é a rotina de nosso herói.

Muitas pessoas confundem o “mundo comum” com “vida pacata”, e não é necessariamente assim. Creio que estamos todos muito bem munidos de lembranças de filmes e jogos que começam com o protagonista fugindo de algo, ou implantando uma bomba, ou socorrendo alguém, etc. Vamos dizer então que o “mundo comum” é onde o protagonista se sente à vontade, sua rotina.

É onde conhecemos quem é o herói e como é sua vida, por pior (ou melhor) que seja.

Estágio 02 – Chamado à aventura

O chamado é aquela fagulha que acontece na história para puxar o herói para fora daquele mundo. Não estamos falando aqui de sair do planeta, indo para outra dimensão (embora possa ser exatamente isso, em alguns casos), mas falo no sentido figurativo.

O chamado é qualquer coisa que quebre a rotina do herói, impelindo-o para algo novo. Pode vir na forma de um acontecimento, uma ideia do próprio protagonista, uma carta, etc.

Estágio 03 – Recusa ao chamado

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Delsin: “Eu sou um deles, cara. Sou um deles!”. Reggie: “Não, NÃO! Não, você é MEU irmão. Tá bom? Você é meu irmão!” (inFAMOUS – Second Son)

No sentido literal, é exatamente o ato de o herói se recusar a atender o chamado. Porém esta recusa pode acontecer de várias formas: ele pode recusar por si mesmo (geralmente por medo, ou talvez por estar numa zona de conforto), ou pode ter algo externo que faça com que a aceitação do chamado seja difícil.

Um exemplo simples de recusa que vem de fora do herói é quando algum membro da família,  amigo ou colega de trabalho tenta barrar ou retardar a aceitação do chamado.

A principal função dessa recusa é mostrar ao público (leitores, espectadores, jogadores) como a situação do herói é complicada e desafiadora. Ou seja, mostrar que a nova situação não é corriqueira como no “mundo comum”, e sim algo realmente difícil, que exigirá muito dele.

Estágio 04 – Encontro com o Mentor

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“É perigoso ir sozinho” Leve isso” – The Legend of Zelda

De uma forma clichê, este estágio é quando o herói encontra aquele velhinho simpático que lhe fala umas palavras de sabedoria antes de enfrentar o perigo, e dá algum presente (mágico ou não). Mas se nos limitarmos a este conceito estaremos nos prendendo num ovo de codorna, sendo que temos um universo para observar.

Para começar, não precisa ser um velho sábio. O “conselho” pode vir de qualquer pessoa, animal, objeto (assistindo um programa ou lendo algo, por exemplo). Mas outra coisa que temos que levar em consideração é que o encontro com o mentor não precisa ser necessariamente um conselho.

Às vezes este encontro é puramente figurativo. Pode ser uma lembrança, ou acontecimento. O importante aqui é compreender que após a recusa o herói geralmente tem um momento de compreensão de si mesmo ou da situação. Algo que o encoraja a passar para o próximo estágio.

Estágio 05 – Travessia do Primeiro Limiar (ou Travessia do Umbral)

Aqui é quando o herói finalmente aceita o chamado à aventura, ou, no caso de ele não ter recusado, é quando ele consegue finalmente entrar no que chamamos de “mundo especial”.

O mundo especial é nada mais do que o cenário onde ocorrerá a história. Não que seja de fato especial (não precisa ser necessariamente uma Hogwarts), mas é mais como aquela situação diferente e desafiadora na qual nosso herói mergulha.

Pode sim vir a ser um lugar diferente propriamente dito, mas também pode ser um local já conhecido pelo herói (sua própria casa, por exemplo), mas com situações diferentes que terão de ser enfrentadas.

Estágio 06 – Testes, aliados e inimigos (ou Barriga da Baleia)

jornada do heroi monomito joseph campbell christopher vogler matrix treinamento neo morpheusGeralmente, este estágio é onde acontece a maior parte da história. Ao entrar no mundo especial o herói vai precisar aprender as novas regras, pois ao sair de sua zona de conforto as coisas mudam.

Nessa fase ele conhecerá aliados, fará inimigos, e de certa forma passará por um “treinamento”. Pode ser que seja literalmente um treinamento (Matrix é um ótimo exemplo), mas também pode simplesmente significar o ato de se acostumar com a nova situação, como em “Três solteirões e um bebê”, onde eles precisam se habituar a uma situação totalmente nova na vida deles (a de cuidar de um recém nascido).

É a crise da história (atenção: crise é diferente de clímax), naquele momento em que você acha que o protagonista vai morrer (ok, em se tratando de videogames este momento acontece todo o tempo, hehehe). Geralmente este é um dos momentos em que você pensa “putz, como ele vai sair dessa?”. E é onde ele acaba percebendo quem está ao lado dele, e quem não está.

Estágio 07 – Aproximação do objetivo (ou Caverna Oculta)

Neste ponto o herói já conhece bem as regras do mundo especial e já se sente pronto para lidar com aquilo que o atormenta (o problema no qual a história gira). Ele enche o peito de coragem, e vai diretamente para a situação para a qual tem se preparado o tempo todo (fisicamente ou psicologicamente).

Estágio 08 – Provação máxima

Acontecimento da crise principal. Aqui, o herói não tem mais tempo para testes ou treinamentos, pois a coisa é pra valer. Geralmente uma parte em que é “tudo ou nada”, em que a possibilidade de falhar é muito grande.

Estágio 09 – Conquista da recompensa (ou Apanhando a Espada)

Ao passar pela provação máxima o herói geralmente conquista algo, e este algo será usado posteriormente para enfrentar o vilão principal (pois é, ainda não chegamos lá). Pode ser uma arma, um item, um conhecimento para enfrentar o antagonista, uma poção, ou qualquer coisa que capacite o herói a avançar para o próximo estágio.

Estágio 10 – Caminho de volta (ou Confronto Final)

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Cloud Strife (à esquerda) e Sephiroth (à direita), de Final Fantasy VII

Armado com a recompensa conquistada no 9º estágio, o herói finalmente enfrenta o vilão/antagonista/situação.

Esta, muitas vezes, é a parte onde o protagonista enfrenta seus maiores temores cara a cara.

Estágio 11 – Depuração (ou Ressurreição)

Não se trata necessariamente de uma ressurreição literal (embora possa vir a ser), mas esta parte da jornada do herói tem mais um sentido metafórico (aliás, como praticamente toda a jornada – você deve ter notado isso).

Então, a ideia de ressurreição aqui é quando o antigo “eu” do herói deixa de existir dando espaço para uma nova pessoa, melhor e mais experiente. É quando ele “renasce” transformado, diferente daquilo que era no início da jornada. Muitas vezes é este “novo eu” do herói que permite que ele vença o antagonista. E, meus amigos leitores, este geralmente é aquele momento em que nós damos aquele suspiro, sentimos aquele arrepio na espinha – o clímax! Bom, se a história for bem contada, é realmente isso que sentimos.

Estágio 12 – Retorno transformado (ou Retorno com o Elixir)

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No final do jogo “Ghost Trick”, após resolver o mistério, essa fotografia torna-se um presente especial para o jogador que acompanhou a história

Após tudo o que passou, agora o herói carrega com ele uma carga de experiência. Sua mudança é perceptível para todos em sua volta, e está levando de volta aquilo que buscava (seja um objeto, uma resposta, ou até um amor conquistado). E onde eu disse “de volta“, pode significar desde o fato de ele estar levando um novo sentimento para seu coração e sua família, ou mesmo que ele está voltando de viagem para sua vila (como Bilbo e Frodo nas histórias de J.R.R. Tolkien).

O herói leva o “elixir”, que é uma espécie de cura que vai melhorar, de alguma maneira, o ambiente onde vive (no filme “Alice in Wonderland”, de Tim Burton, o elixir são as coisas que Alice diz para as pessoas da festa – tanto os cutucões quanto os conselhos).

Por vezes o elixir é apenas a bagagem de sabedoria do herói que ele carrega para si mesmo, levando-o a ter um estilo de vida melhor, ou direcionando-o para aquilo que ele mais sonhou na vida.

Enfim a Jornada do Herói se conclui

Como você notou, praticamente tudo tem um cunho metafórico na Jornada do Herói, e podemos enxergá-la até em nossas vidas.

O herói não precisa necessariamente morrer e ressuscitar,  não precisa lutar com uma espada nem enfrentar monstros reais… Pode ser que a luta dele seja com as palavras, num tribunal. Ou com um lápis, em uma prova de universidade.

Existe um outro detalhe. Escritores e roteiristas nem sempre escrevem histórias que se encaixam exatamente nesses 12 passos. Em algumas histórias, alguns dos estágios podem estar reposicionados de forma diferente, ou até não estarem presentes. A Jornada do Herói não é um trilho de trem, onde não se pode sair do rumo. Vamos dizer que está mais para um rastro, numa floresta de possibilidades, e que podemos (ou não) usar para não nos perdermos. E, para aqueles que decidem seguir esse rastro, sempre poderá fazer pequenos desvios sem que a essência da coisa seja alterada.

Em outras palavras, o que Campbell fez não foi criar uma regra. Ele apenas identificou o que havia em comum nas histórias, e apresentou de uma maneira organizada. Quando a Vogler (autor de “A Jornada do Escritor”), sua intenção era que a jornada servisse apenas como um guia para que escritores não se perdessem no meio das próprias histórias.

 

Este post faz parte da série Jornada do Herói. Veja mais sobre este maravilhoso conceito aqui!

 

E para facilitar ainda mais, a jornada toda pode ser dividida em três simples atos:

1º Ato) Apresentação, onde conheceremos melhor o protagonista;
2º Ato) Confrontação, onde a maior parte da história acontece;
3º Ato) Resolução, quando fecham-se todas as pontas soltas.

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É claro que este post está resumindo o máximo possível este conceito (sim, apesar de parecer que está grande, tive que resumir a coisa toda), pois isso é assunto para muitos livros (veja aqui uma lista excelente para você).

Agora, um último vídeo do TEDed que fala deste mesmo assunto de uma forma fantástica (esta é a versão dublada):

 

Fantástico este vídeo, não?

E você, o que achou? Deixe abaixo seu comentário falando sobre alguma história em que identificou as etapas da jornada 🙂

 

Este post faz parte da série Jornada do Herói. Veja mais sobre este maravilhoso conceito aqui!

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Sobre o Autor

Escritora, redatora e ilustradora autodidata, Nantai procura reavivar a centelha de magia que todos temos. Gosta de montanhas, gatos, e de escrever ao som da chuva. Gosta de falar sobre fantasia e ficção científica, e colabora neste blog com um pouquinho de tudo. www.bcrausnantai.com

2 thoughts on “A Jornada do Herói e os jogos, e os animes, e os filmes…

  1. Fantástico o site de vocês!
    Parabéns!!!! Conquistaram um leitor.
    Sobre o assunto, é difícil eu me identificar com algum personagem, mas parando para pensar, é exatamente ( ou quase ) assim que são divididos.
    Obrigado pela ajuda ( já que escrevo ), e obrigado pelas análises também.

    1. Olá Rogers, tudo bem?

      Ficamos felizes em saber que o conteúdo foi de utilidade para você. O conceito da Jornada do Herói é de fato muito usado hoje em dia por escritores e roteiristas em geral.

      Continue nos acompanhando, tem muita novidade ainda por vir! ^_^

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