A Caminho da Fé e Black Mirror ‘Urso Branco’ Netflix – Análises entre si

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On 28 junho, 2018
Last modified:5 julho, 2018

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Antes de falar deste episódio de Black Mirror (um original Netflix) vou abrir um parenteses ilustrando o que quero dizer através do conteúdo de um filme (A Caminho da Fé, também um original Netflix).

Infelizmente o ser humano é vingativo e rancoroso por natureza. Mascaramos nossa maldade sob o pretexto de justiça. Por vezes, a justificativa de justiça tende a ser divina, e então entra o conceito cruel e implacável do inferno como punição, vinculando a maldade em algo que deveria ser bom por natureza (a criação do Deus que pune, maldoso e rancoroso que aplica o mal para defender o bem).

black-mirror-netflix-deus-urso-brancoEste Deus se parece mais com um reflexo do ser humano. Trata-se de uma mera criação distorcida de Deus para impormos nossas dores e anseios mais profundos sem nos atribuir a culpa.

A Netflix lançou há um tempo o filme original chamado “A Caminho da Fé“, baseado em fatos reais. Ele mostra a vida de um pastor que começou a não acreditar no inferno e começou a questionar esse Deus vingativo que todos insistiam em sustentar. Por causa disso, enfrentou uma grande onda de raiva e desaprovação de seus colegas e amigos.

Há uma cena que foi muito significativa: ela acontece quando o pastor protagonista é julgado por bispos, por conta de sua pregação polêmica contra o inferno. No julgamento ele lançou uma pergunta chave a um dos bispos. Segue o dialogo:

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A cena acontece aproximadamente a 1h e 14min do filme.

—Bispo Elis, já amou alguém? Alguém próximo ao senhor? Um tio… Um irmão… Um amigo? Que se desviou e está no inferno? Houve alguém que amava e fazia parte de sua vida?
— Meu pai está no inferno. E daí? – responde o bispo.
— Como você sabe? Como você sabe que ele está no inferno? Se não pode responder, ou não tem certeza, ou tem medo.
— Porque ele pecou até morrer. É como sei. – ralhou o bispo, num tom odioso.
— Há quanto tempo ele está lá?
— Há quinze anos.
— Há quinze anos… E você o amou?
— Claro, ele era meu pai. Mas ele batia na minha mãe, batia em mim. Era um fornicador! Agora Deus o está punindo.
— Ele esta sofrendo no inferno. Torturado e atormentado pela eternidade. Vou perguntar uma coisa: você o tiraria de lá se pudesse?
— Não depende de mim – foi a resposta evasiva do bispo.
— E se dependesse? Se houvesse um modo de negociar com Deus, com Jesus, você tiraria seu pai de lá bem rápido, não?
— Não posso responder!
— Claro que tiraria, como todos. A pergunta que temos que nos fazer é esta: “Somos mais misericordiosos que Deus?”
— Não! Agradeço a Deus por aquele condenado estar no inferno!
— Acabou de dizer que o amava…
— Eu o adorava!
— E não o tiraria de lá?
— Ele esta no inferno, onde é o lugar dele. Essa loucura… Essa arrogância… Veio dizer que estamos errados e você certo? Perverte as escrituras, diz que Deus não pune! Está pregando uma falsa doutrina e não toleraremos isso nas nossas igrejas. Acreditamos que, se você aceitar Jesus e acreditar que Deus o ressuscitou, será salvo. E é o único modo de ser salvo.

A próxima cena que quero destacar acontece mais para frente, quase no final do filme, depois de ter sido expulso de sua função.

Há um convite inesperado para pregar em uma das igrejas que acabaram concordando com ele. Segue o trecho:

— Com tudo o que passei, sei como é ser um excluído. Sabem? E eu… sei de algo… Sei qual é a sensação de ouvir que não mereço o amor de Deus. Eu passei minha vida temendo a Deus. E ensinei este medo. Eu o ensinei tantas vezes que tive medo de não o fazer. Por que é tão difícil perder esse medo? É porque Deus ama a todos incondicionalmente, então… talvez também precisemos? É isso? E por que este amor incondicional nos assusta tanto? Não sei. Mas sei de uma coisa: foi o amor de Deus que me trouxe até aqui.

Pense na pergunta “E por que este amor incondicional nos assusta tanto?“. Talvez nossa necessidade do inferno seja pela pura culpa da incapacidade pessoal em perdoar. “Deus precisa estar do meu lado em minha maldade e necessidade de punir, assim sinto menos culpa em ser quem sou“.

black-mirror-netflix-urso-branco-julgamento-popularSeria esse o motivo da existência do purgatório e inferno? Ter um espaço livre para odiar, castigar, torturar (físico ou psicologicamente) e ainda assim estar protegido pela benção de Deus. Um lugar para se sentir humano sem ser considerado um demônio. A única diferença de uma divindade como Jesus, por exemplo, é sua límpida capacidade em perdoar e enfrentar TODAS as injustiça sem culpar ninguém.

Que humano maltratado conseguiria profundamente desejar a salvação do seu algoz? Somos capazes de recusar um paraíso para ficar na Terra em forma de espírito só para assombrar aqueles que não sofreram a devida “justiça”, tentando puni-lo ao custo de nossa própria paz.

Bastam poucas palavras geradoras de boatos para se atirar projéteis fatais de ódio. Para ver um exemplo disso veja este artigo do G1 que coincidentemente foi publicado no dia que estava escrevendo este post: Boatos de Whatsapp sobre traficantes de crianças deflagram onda de linchamentos na Índia . O pretexto para julgar parece apreciado e desejado. Todos temos um nível de complexo de Rei chamado Ego.

Feita essa introdução reflexiva, vamos finalmente para a análise do episódio “Urso Branco”, de Black Mirror.

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Maldade humana no episódio “Urso Branco de Black Mirror

Nesse episódio a protagonista é foco de um ódio desproporcional e implacável. Desproporcional no sentido de não conseguir ver um fim para aquele castigo. O ódio do povo é tão contagioso e crescente que parece só intensificar. Se depender da vontade popular, a tortura não irá cessar.

black-mirror-netflix-urso-branco-sofrimentoEu acredito que a protagonista deve ser punida sim pelo que fez, mesmo sendo ela apenas cúmplice. Confesso que da primeira vez que assisti este episódio senti um prazer sádico e justo em vê-la sofrendo pelo que fez. Num momento ela fala o seguinte:

O que tem de errado com eles? Por que não ajudam a gente? Ficam só assistindo!

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A cena acontece próximo ao minuto 7:41

Não por acaso, foi isso exatamente o que ela fez quando o namorado torturou e matou uma criança. Esta frase acima pode ter passado pela cabeça da menina torturada enquanto a via gravando tudo sem fazer nada para ajudar. A protagonista deste episódio de Black Mirror estava recebendo o troco na mesma moeda, só que tudo se repetia dia após dia, ao ponto de desejar a morte.

Por conta de seu comparsa ter saído “ileso” da justiça ao se suicidar, ela acabou sendo alvo de uma canalização de atenção extrema pra si. Principalmente por ele ter liderado, torturado e matado.

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Victoria é perseguida por transeuntes estranhamente calados, que apenas a filmam com seus celulares

Um comportamento muito comum do ser humano é a necessidade de descontar sua fúria e ódio no alvo mais relevantemente plausível. Por isso às vezes um pai de família que sofre muito no serviço acaba por vezes descontando inconscientemente na esposa ou filhos. Quando se possui um ódio e insatisfação muito grandes, essa energia negativa acaba sendo canalizada ao alvo mais próximo, mesmo que esse alvo não seja  o mais justo para aquele golpe.

Próximo do final uma pessoa do público diz “Queime no inferno!”. Todos compartilham de uma fúria até sobre humana. E isso somado ao reforço da aprovação social tem como consequência a liberação aleatória de todo tipo de frustração e raiva guardadas no fundo do ser.

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Victoria assiste, junto com a plateia, um vídeo sobre si mesma e sobre seus crimes

 

Analisando mais friamente, apesar de Victoria ter sido cúmplice, existe uma pequena chance de essa protagonista de Black Mirror ser vítima de algo (mas não inocente) como o amor, as drogas, ou da situação como um todo. Aquele sentimento de que se sabe que está errado mas não pode voltar mais atrás, desceu demais na toca do coelho e agora não consegue mais subir.

Sendo vítima ou não, ela possui sim algum nível de responsabilidade e culpa, e deve pagar por aquilo. Mas o que ela está recebendo chega a ser diabólico, semelhante a atitudes da Idade Média, onde se queimavam pessoas vivas inferindo serem bruxas. Quando se deixa a emoção tomar conta, não existe mais lógica nem ponderação.

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O pior algoz: nossa própria consciência

Normalmente, o pior castigo é nossa própria consciência. Porque fica em looping naturalmente, repetindo cenas em flashs de momentos terríveis dos quais nos arrependemos. Mesmo não admitindo, muitos assassinos com certeza devem se arrepender em algum momento. Talvez apenas depois de mortos.

Pensando agora, que tipo de igreja ou religião humana conseguiria perdoar verdadeiramente a protagonista deste episódio em Black Mirror? A compaixão e perdão das pessoas faz com que nosso monstro punitivo da consciência interna se ative bem mais forte. O que vem de fora pode vir a enfrentar resistência pra atingir o coração, mas o que vem de dentro pode ser o verdadeiro inferno e fonte de transformação verdadeira.

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Um looping infinito de esquecimento, sofrimento e remorso, onde ela sequer tem tempo para refletir seus erros e se redimir

Levando em conta a crença espírita e o conceito de Umbral (onde os espíritos ficam por uma cobrança da própria consciência), essa pessoa primeiro vai ter que lidar com o seu ódio com relação ao ser humano, e isso pode ofuscar sua necessidade em refletir o que fez para se perdoar.

No papel da vida fazemos muitos traços errados (claro que uns mais errados que os outros), e isso faz parte da imperfeição humana. A consequência não deveria ser abrandada nem dificultada. A justiça vem naturalmente, e forçá-la só tira todo e qualquer equilíbrio que poderia existir.

Outras informações de Black Mirror “Urso Branco”

Sinopse deste episódio: Victoria acorda e não se lembra de nada sobre a sua vida. Todos que encontra se recusam a falar com ela;

Classificação etária: 16 anos.

Gênero: Ficção científica

Roteiro: Charlie Brooker (criador da série)

Direção: Carl Tibbetts

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Você também sentiu uma grande surpresa na reviravolta deste episódio de Black Mirror? Qual foi sua reação?

Tentou assistir uma segunda vez para reparar melhor nos detalhes?

O que sentiu pela protagonista antes de saber que era uma assassina? E o que sentiu depois?

Conte nos comentários 🙂

(O vídeo abaixo é uma transcrição deste posts)

Trailer A Caminho da fé Netflix

Sobre o Autor

Administrador do blog Interprete-me, Jerry D. Blodgett tem paixão pela literatura subjetiva e os estudos da filosofia e psicologia. Sempre que possível, faz pontes entre a reflexão interior e o entretenimento.

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