Jogo sem história (ou com uma história rasa) são mesmo ruins?

Certa vez, numa das Campus Party (creio que em 2009), eu estava vendo uma palestra sobre games, e o assunto voltou-se para a história contada neles. Um dos espectadores presentes levantou a mão e disse que não se conformava com jogos que não tinham uma história convincente por trás. Digo, uma história realmente interessante, imersiva.

Após ser perguntado detalhes, o espectador exemplificou com o jogo para Nintendo DS: “Elite Beat Agents“, dizendo que não se conformava com aquilo. Para aqueles que não conhecem, trata-se basicamente de um jogo de música onde temos que tocar na tela (com a stylus) nos momentos e locais certos de acordo com o que a música pede:

 

Antes de a música começar, é apresentado um personagem em uma situação de “apuros”. Com isso, os agentes da Elite Beat aparecem, fazem uma espécie de showzinho à medida que tudo vai se resolvendo na tela de cima (o Nintendo DS tem 2 telas). E… Missão cumprida.

Se formos olhar por este ângulo, a história é realmente ruim e não chama muito a atenção. Porém…

 

O objetivo de cada jogo

 

Cada jogo tem um objetivo e jogabilidade específicos. E, por objetivo não me refiro a “salvar a Peach que foi raptada pelo Bowser”, ou “salvar o dia”. É certo que isso conta como objetivo, mas falo aqui de um outra coisa: o objetivo de nos entreter.

Todos os jogos, sem exceção, tem em comum o objetivo de entreter e divertir quem os joga. E vou comentar aqui, com minhas próprias palavras, algo que ouvi naquela mesma palestra que citei no início (dito por Edgard B. Damiani, o palestrante), à respeito de DIVERSÃO:

O sentido real da palavra diversão não é somente aquele de “have fun“, ou seja, não trata-se apenas de a pessoa estar rindo, achando graça de algo, ou coisas assim. Se você procurar por “diversão” no dicionário verá que um dos significados são: desvio, digressão, aquilo que desvia o espírito das coisas que o preocupam ou a atenção do assunto em que está concentrada.

Então, se você deixa de fazer seu dever de casa porque acha que contar as rachaduras do teto é mais interessante, você está em estado de diversão, mesmo que isso não seja realmente divertido (uhul, vamos contar as rachaduras de nossos tetos, que legal! Só que não.).

Ao dizer que o objetivo de um jogo é fazer você se divertir estou querendo dizer que este objetivo é de criar imersão e distração.

 

As justificativas

 

elite-beat-agentsA maioria dos jogos de ação, aventura e RPG (senão todos os destes gêneros) contam alguma história (geralmente boa e complexa) para justificar o andamento do jogo. Muitas vezes a maior parte da graça está realmente no enredo, pois queremos saber o que vai acontecer no final – e muitas vezes temos agradáveis surpresas.

Mas nem todos os jogos precisam de alguma justificativa para existirem. Jogos de lógica ou os puzzles raramente preocupam-se em nos ambientar. O mais comum é jogar o problema em nossa frente e pronto. Diversão garantida.

Mas vemos que certos jogos possuem algum tipo de ambientação apenas para que não passe em branco. No caso de Elite Beat Agents, a ambientação pode até parecer boba, mas ela cumpre seu papel – o de nos fazer entender o motivo de ter três caras de terno e óculos escuros dançando de forma tão dedicada e eloquente.

É claro que a história poderia dizer simplesmente que os três estão fazendo um tour artístico (o que seria menos bizarro), mas acredito que os desenvolvedores quiseram sair do óbvio. Como a história não tem tanta importância para a jogabilidade (nenhuma importância, na verdade), por quê não criar três agentes que saem de terno por aí dançando e remediando situações? Pois é, não há mal nenhum nisso.

Eu joguei Elite Beat Agents em meu Nintendo DS, e digo: é realmente divertido! Talvez não o tipo de jogo que passamos horas bitolados diante do console, mas é bem legal. Enquanto estamos jogando, ficamos tão absortos na música e na tela de baixo (para acertar os movimentos) que sequer dá tempo de ver a historia que acontece no quadro de cima. De certa forma, se não tivessem estas historias  a diversão seria a mesma, pois o importante aqui são as músicas e os toques sincronizados.

 

Críticos e haters

 

Bust a Move
Bust a Move

Então, antes de sair por aí criticando a história “ruim” de um jogo, é interessante pensar antes no objetivo deste. Precisamos saber qual é a real importância que a história tem para cada jogo, pois como vimos, alguns jogos sequer precisam de uma ambientação para ser divertido.

Tudo vai depender de seu foco. Se você ficar prestando atenção apenas na historia de cada game poderá notar que muitos títulos renomados tem uma backstory fraca e clichê (que graça tem ver um encanador no reino dos cogumelos correndo atrás de uma princesa que foi raptada por uma tartaruga?). E é aí que temos que ter o bom senso de notar que nem sempre o enredo é o mais importante em um jogo.

Criticar algo por ter de fato jogado, e ter notado que a coisa não é assim tão boa quanto a proposta é uma coisa. Mas outra coisa é sair por aí dizendo que jogos sem uma boa história são ruins e ridículos. Isso é ser hater, ou troll. Não sejam estes caras. Não julgue sem saber.

Vamos aprender a perceber qual é a intenção de cada jogo. Temos que entender que a história de fundo de alguns é o que menos interessa.

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Sobre o Autor

Escritora, redatora e ilustradora autodidata, Nantai procura reavivar a centelha de magia que todos temos. Gosta de montanhas, gatos, e de escrever ao som da chuva. Gosta de falar sobre fantasia e ficção científica, e colabora neste blog com um pouquinho de tudo. www.bcrausnantai.com

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