Teorias Love Death and Robots Netflix: Explicações dos 18 finais

A antologia de animações Love Death and Robots (Amor, Morte e Robôs) foi um presente da Netflix para todos os amantes de instigantes contos de ficção científica e terror (assista aqui).

Apesar de ser uma coletânea de animações, Love Death and Robots está longe de ser para o público infantil. Recheado de situações inusitadas, estas criações de Tim Miller são perfeitas para quem gosta de coisas ao estilo “Black Mirror”: um ar sombrio e de críticas intrínsecas condensadas em alguns minutos empolgantes.

A miscelânea de Love Death and Robots

Não espere que as animações da série Netflix Love Death and Robots tenham uma continuidade, ou um estilo único. Já no trailer podemos perceber que cada episódio trata de uma história própria, em universos diferentes, e também com estilos de animações bem singulares entre si.

Tim Miller fez questão de entregar cada roteiro na mão de um time de artistas e animadores diferentes. Isso para que, propositalmente, nada ficasse homogêneo. A antologia Netflix Love Death and Robots é uma viagem alucinante entre estilos, ideias, pensamentos e valores. Tudo misturado de forma espetacular nestes episódios muito bem planejados.

E por falar em episódios, uma das características deles é que são super curtos, indo de 6 a 17 minutos. Alguns podem ver isso como um ponto negativo, afirmando que as histórias deveriam continuar ou serem mais embasadas, mas aí é que está parte da graça de Love Death and Robots: eles dão pequenas porções dessas histórias, mas todas elas contém uma densidade que não encontramos facilmente por aí. São conceitos que foram condensados em uma pequena narrativa, e por isso mesmo fica tão mais fácil de fazer reflexões e discussões em grupo.

Love Death and Robots e seus episódios “sem final”

Um dos objetivos para os espectadores de Love Death and Robots Netflix é que, como falei no parágrafo acima, ao final de cada um dos episódios haja reflexão ou discussão sobre o que foi apresentado.

De fato, muitas coisas poderiam ser exploradas em cada uma das histórias, vindo até a se estender por mais de uma hora, mas a intenção destes pequenos contos animados é exatamente essa: provocar nossa mente com conteúdo que nós mesmos precisamos completar. Quando temos a sensação de que algo ficou no ar, nosso cérebro (essa máquina incrível que temos preguiça de usar) começa a criar possibilidades. Dá até para dizer que Love Death and Robots tem uma secreta intenção de provocar nossa inteligência.

Sim, eles querem te fazer pensar.

Vou agora falar um pouco sobre o que notei em cada um dos episódios e peço que, se possível, deixe nos comentários as visões que você teve sobre as animações Netflix de Love Death and Robots. Não estou aqui para ditar o que os criadores tentaram dizer com as histórias, apenas quero compartilhar uma visão particular. E sei que você também tem muito a acrescentar.

Ah, já aviso que vai haver spoilers. E mesmo que você seja uma pessoa que não se importa com isso, quero deixar claro o seguinte: algumas das animações apenas são incríveis por causa dos plot-twists (ou seja, as surpresas). Não estrague isso lendo antes de conhecer as animações.

Garanta que tenha assistido todos antes de continuar a leitura.

 

Love Death and Robots, episódio: A vantagem de Sonnie

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O primeiro episódio de Love Death and Robots Netflix já começa impressionando por sua qualidade na computação gráfica. Seguindo um estilo de ficção científica cyberpunk, A Vantagem de Sonnie mostra um futuro distópico onde uma mulher que sofreu de abusos tenta mostrar aos homens que ela não é fraca como pensam. Sonnie diz que não é vingança. Se não é isso, então é o prazer de se sentir viva na arena.

Como pudemos perceber no final, Sonnie não é a mulher com cicatrizes. Aquilo é uma casca do que sobrou dela, sendo que sua consciência foi transferida para a criatura dentro do tanque. É por isso que ela consegue tantas vitórias: se o monstro morrer, ela morre. Diferente de seu oponente, que sabia estar seguro dentro de seu corpo humano caso perdesse, Sonnie lutava por sua vida, literalmente, já que o monstro era seu receptáculo. Eis a vantagem de Sonnie: levar o jogo a sério, numa luta pela sobrevivência, e não apenas uma competição por dinheiro.

Pode até ser que ela tenha dito não ser vingança mas, de certa forma, não deixa de ser. Como ela mesma disse, precisou aprender a sentir o ódio. E com essa força ela vai às arenas, estraçalhando os egos inflados de homens que a julgam fraca só por ser mulher.

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Love Death and Robots, episódio: Os Três Robôs

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Esta é uma das animações mais inocentes da série, e talvez uma das mais divertidas e engraçadas. Mesmo assim, a crítica ao nosso modo de vida está embutido nas conversas dos três robôs de forma bem criativa e inteligente. Principalmente quando falam sobre deidade incompreensível (referindo-se a Deus) e sobre como nossa ruína veio de nossa arrogância, busca incessante por poder, e tudo o mais.

O final, mostrando o gato com polegares opositores, é uma referência à nossa própria evolução: nossa espécie só evoluiu por causa deles (claro que tiveram outros fatores, mas os polegares foram essenciais), pois assim pudemos pegar objetos, criar ferramentas, etc. O episódio Os Três Robôs fala da fragilidade da humanidade de uma forma cômica.

O fato de terem usado gatos, seres aparentemente inofensivos (mas já envoltos em piadas sobre suas conspirações contra os humanos) e terem dado a eles uma característica que lhes permitiram a evolução sobre nossa espécie foi a sacada final. Claro que é uma piada, mas a ideia é olharmos além do improvável e compreendermos o que está por trás: nós humanos somos prepotentes em acharmos que nada mais poderá ficar acima de nós.

Note que este conceito acaba aparecendo em outros episódios da antologia.

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Love Death and Robots, episódio: A Testemunha

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Este foi o primeiro episódio de Love Death and Robots que me causou certo desconforto quanto à continuidade. Coisas contendo loopings sempre são tão controversos quanto histórias com viagens no tempo. O ar cyberpunk de A Testemunha é presente quase todo o tempo, e temos logo no início um choque ao ver a protagonista sendo testemunha da própria morte – mas ela não percebe isso: acha que apenas viu outra pessoa sendo assassinada, por isso liga para a polícia sem tentar entender o que viu.

Quando as coisas se aproximam do final e percebemos que os personagens entraram em um looping é que nossa mente dá um nó. E neste exato ponto o episódio acaba. Se aquela mulher tivesse parado apenas um instante e ouvido o que ele tinha a dizer, talvez nada grave acontecesse. E o mesmo provavelmente foi com o homem (ele presenciou o assassinato, fugiu, se viu encurralado e a matou).

O problema é que, como testemunha de um assassinato, dificilmente escolheríamos dar ouvidos a quem consideramos perigoso. Não há explicação de como eles entraram no looping, e isso nem é importante. Eis a genialidade da pequena história: não importa como chegaram ali: o que importa é a discussão que isso gera.

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Love Death and Robots, episódio: Proteção Contra Alienígenas

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Neste episódio, o cenário também é de um futuro pós-apocalíptico. Pelo que vimos no final, provavelmente houve uma invasão alienígena. Ou aquelas criatura seriam algum tipo de criação de laboratório que saiu do controle? Ou seriam baratas mutantes após uma terceira guerra mundial? Uma outra possibilidade é que os humanos é que são os invasores, e aquelas criaturas estão tentando retomar o território. Apesar de ter “alienígena” no título, essas especulações não são inválidas.

Seja o que for, na animação Proteção Contra Alienígenas a coisa saiu do controle dos humanos, e eles tiveram que se recolher para fazendas tecnológicas, protegidas por um campo de força. Quando a visão da câmera se afasta, mostrando o planeta de longe (que não é a Terra – por isso a teoria de os humanos poderem ser os invasores), vemos que o mesmo aconteceu em vários lugares, e que é questão de tempo até que as criaturas façam novo rompimento e, eventualmente, vençam a guerra.

Novamente o fim da humanidade está em foco, como que tentando nos alertar para nossas atuais ações e mostrando o que poderá acontecer se não tomarmos cuidado.

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Love Death and Robots, episódio: Sugador de Almas

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Esta é a primeira animação da antologia feita inteiramente em 2D, e está realmente linda (aliás, todas estão… se eu for ficar elogiando cada uma delas soará repetitivo).

O sugador de almas aqui é chamado de “Empalador”, ou O Drácula. Quem viu alguns dos filmes baseados na obra original de Bram Stoker deve se lembrar de cenas em que o Conde Drácula possui Lucy sexualmente (embora no livro a descrição é apenas de mordida no pescoço). Essa visão do Drácula dos filmes foi a que esta animação de Love Death and Robots escolheu apresentar, e essa conclusão pode ser chegada através das dicas dos gatos na viga e também pela cena em que os exploradores atiram no membro dele, e algo como um tentáculo sai dali.

A forma como o Drácula da animação O Sugador de Almas toma suas vitimas não ficou clara, mas devido à alcunha de “empalador” e ao membro estranho dele, imagino que os monstros da animação sugavam as vida de suas presas através do empalamento com sua genitália. Para quem não sabe, o empalamento era uma técnica de tortura secular, onde uma estaca de madeira era introduzida pelo ânus ou vagina da vítima ainda viva, e empurrada até sair pela boca, pescoço, ou outro orifício do crânio.

Horrível demais? Pois é. E isso é apenas uma pequena amostra da crueldade humana.

A título de curiosidade, o conde romeno Vlad III (do século XV, que recebeu a alcunha de “empalador”) apreciava assistir a essa tortura durante suas refeições. E foi exatamente nele que Bram Stoker se baseou para a criação de seu livro Drácula. Por isso afirmo que não é mera coincidência que neste episódio o monstro é chamado de “Drácula” e de “Empalador”.

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Love Death and Robots, episódio: Quando o Iogurte Assumiu o Controle

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Esta é uma das animações mais curtas da antologia de Tim Miller. Mostra uma vida não humana resolvendo todos os nossos problemas, e depois nos abandonando.

Assim como as outras animações, esta exala a ideia de que a humanidade não está pronta para se virar sozinha. Apesar disso, a realidade é que estamos sós (aparentemente), e por isso nos afogamos cada vez mais em nossa própria bagunça (para não falar outra coisa). Na animação, o Iogurte cria um plano perfeito para que a economia se estabilize mas, ao não ser seguido à risca, tudo vai por água abaixo.

O Brasil (e outros lugares do mundo) está vivendo um momento político delicado, onde há muita corrupção envolvida de todos os lados. Essa história de Quando o Iogurte Assumiu o Controle nos faz pensar: mesmo que tivéssemos um plano meticuloso, uma receita ideal para levar tudo à perfeição, alguém agiria com base em seus próprios interesses e acabaria por arruinar tudo.

O que essas grandes personalidades não percebem é que, ao arruinar a base (nós, o povo) eles também cairão na própria cova que cavaram. Cedo ou tarde.

No lugar do Iogurte eu também entraria em meu pote, reuniria meus cereais, e me mandaria.

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Love Death and Robots, episódio: Para Além da Fenda de Áquila

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Antes de falar do conceito em si, uma observação: eu quase confundi essa computação gráfica com uma filmagem real, de tão perfeito que está (aconteceu o mesmo com outras). Vai chegar uma hora em que não saberemos distinguir live action de animação.

Voltando ao assunto, Para Além da Fenda de Áquila nos dá uma das sensações mais temidas por muitos de nós: a distância de nossas casas, a impossibilidade de voltar para um lugar onde possamos chamar de lar, a dúvida sobre onde estamos, e a dura realidade de descobrirmos que estamos sozinhos no universo.

Ao cometer algum erro de cálculo, a nave não teve o trajeto esperado e se perdeu no tempo e no espaço. Como sabemos, o tempo e o espaço são coisas relativas, principalmente quando se fala do universo e a velocidade da luz. Não tem como um grupo de humanos ter o controle de algo tão complexo assim. E também não tem como voltar para a Terra do jeito que se conhecia quando você derrapa pela tangente numa viagem de dobra.

No fim, para amenizar a dor dessa triste realidade, uma criatura (medonha) colocou o protagonista em um longo sono onde revive repetidamente uma situação mais suportável para sua mente. É como se ele estivesse preso entre a vida e a morte, num limbo em que não é nem corpo, nem espírito.

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Love Death and Robots, episódio: Boa Caçada

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Novamente, uma animação em 2D de encher os olhos. O detalhe dos movimentos está tão belo e fluido que chega a parecer que foi feito pelos estúdios Disney (sim, sou super fã das animações Disney). Além da qualidade de animação, este tem todo o estilo steampunk de ser, pois fala de um período histórico do passado, mas com a inserção de uma tecnologia muito acima do que realmente existia àquela época, e tudo movido à vapor.

No episódio Boa Caçada, a história coloca a fragilidade da mulher em foco, e logo em seguida cria um contraponto numa posição de vingança. No início da animação somos apresentados a huli jing, uma entidade da mitologia chinesa em forma de raposa, e que pode tomar a forma humana, enfeitiçando homens. No sul da China e na Malásia as huli jing eram a explicação para uma doença que causavam a indisposição principalmente de homens. Hoje em dia, poucas são as pessoas nessas regiões que ainda têm tais crenças.

A animação Boa Caçada foi sagaz ao mostrar a inversão de responsabilidade pelas mazelas do adoecido: enquanto o pai do protagonista acreditava que as huli jing enfeitiçavam os homens propositalmente para sugar-lhes a vida, a filha da huli jing explica que na verdade são os homens que entregavam a ela seus corações (figurativamente, no sentido romântico) e por isso elas ficam atormentadas e presas a eles.

É possível que o resgate dessa lenda tenha vindo para dar foco à culpa que muitas vezes é atribuída às mulheres em questões de violência e estupro. Isso era mais evidente nos séculos passados, mas ainda hoje existem casos semelhantes, onde a mulher tem a culpa por ter “seduzido” o homem, ou por estar usando certo tipo de roupa (como se isso fosse um convite).

Além disso, também podemos voltar àquela questão de que o ser humano, quando começou a avançar tecnologicamente, foi tomando conta de tudo, pensando que todas as existências (inclusive as mulheres) lhes pertenciam, e que eles podiam tratar a todos que considerassem inferiores como bem quisessem. Vemos isso na história, sobre como os europeus tratavam os orientais na época da colonização e, para nós brasileiros há o triste exemplo do povo da África, que sofreu injustamente na época da colonização portuguesa.

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Love Death and Robots, episódio: O Lixão

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Viver num lixão era, para “Ugly Dave”, natural. Ele estava ali há tanto tempo que não se incomodava mais com baratas, ratos e gambás mortos, ou qualquer coisa nojenta e duvidosa que estivesse criando vida por ali.

Se repararmos bem, o lixo em volta da casa de Dave tem um empilhamento surreal, quase impossível de imaginar. Levando isso para o lado figurativo, podemos interpretar como a própria vida de Dave, que conseguiu encontrar um equilíbrio mesmo em meio a tantas coisas repulsivas. E, se forçarmos o cérebro ainda mais, perceberemos que esse Dave somos nós.

Pode até ser que não vivamos em um lixão mas, de certa maneira, é mais ou menos aquilo que encontramos na sociedade. O lixo moral vai se acumulando, acumulando… Nós vamos equilibrando-o de forma que não desmorone, e quando vemos já estamos habituados com aquela situação de mentiras, injustiças e violência contra inocentes.

Otto, o monstro de lixo, é outra coisa que podemos enxergar como uma alusão à realidade: uma criatura perigosa pela qual nos afeiçoamos, talvez por conter ali uma pequena parcela de algo que um dia foi bom. E quando alguém de fora tenta arrancar isso de nós, limpar a bagunça, nos agarramos ao lixão que chamamos de lar e o defendemos com unhas e dentes…

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Love Death and Robots, episódio: Metamorfos

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Começo dizendo que esta animação tem uma das melhores transformações de lobisomem que já assisti. Ver a pele humana descamando e dando lugar ao pelo de lobo, de uma forma tão natural e fluida, foi realmente maravilhoso.

Em Metamorfos vemos mais uma vez o ser humano desrespeitando o diferente. Nos episódios anteriores isso também foi tratado, e aqui essa pauta entra mais uma vez em foco. Por não serem “normais” (comuns e banais como as outras pessoas) os lobisomens eram tratados como ralé. O mais curioso é que estes mesmos lobisomens têm habilidades muito superiores às dos humanos comuns. Sendo assim, não seria para eles estarem no topo, comandando?

Acontece que o ser humano comum tem medo do que lhe é diferente. Basta olhar ao nosso redor: sempre que algo novo surge (novas ideias ou mesmo um estereótipo fora do padrão) há uma repulsa natural. O diferente é temido, porque não sabemos do que é capaz. O diferente ameaça nosso status de soberania. A reação comum é que o diferente seja combatido para que não suba ao poder… Assim é com todas as coisas que não conhecemos.

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Love Death and Robots, episódio: Ajudinha

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Quando terminei de ver este episódio, fiquei sem saber o que pensar. Uma parte minha era de choque, enquanto a outra era de tentativa de reflexão… A impressão que dá é que a protagonista fez aquele sacrifício por quase nada. É verdade que ela priorizou perder o braço do que a vida, mas tudo por um conserto “bobo”.

E, claro… não vamos nos esquecer que o acidente foi causado por um dejeto espacial largado pelo ser humano. Esses lixos espaciais, mesmo que um mero parafuso, pode ser mortal já que no espaço sua velocidade pode atingir relativos 36.000 Km/h (dez vezes mais veloz que o projétil de um fuzil AR-15).

A coragem que ela demonstrou é de uma sobriedade e frieza sem tamanho, e nos faz pensar se faríamos o mesmo em semelhante situação. Foi uma atitude corajosa de uma mulher que não tinha absolutamente ninguém para dar uma “ajudinha” (ou, como no original em inglês, “uma mãozinha”). Ela conseguiu pensar em uma solução que, embora macabra, salvou-lhe a vida.

(OBS: alguém mais ficou imaginando que ela deveria estar conectada a um cabo de segurança?)

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Love Death and Robots, episódio: Noite de Pescaria

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Gradativamente é possível nos apegar aos dois personagens de Noite de Pescaria, mesmo que sejam menos de 10 minutos de história. E por este motivo o final me entristeceu um pouco.

Voltei mais uma vez a lembrar da questão do ser humano se achando no topo da cadeia alimentar. Quando o rapaz mais jovem se encantou com as visões, tirou a roupa e foi nadar. Foi apenas quando ele se viu nu que passou a fazer parte daquilo de verdade. Repare no contorno dos personagens e dos peixes no início (antes de ele ir nadar). As cores das criaturas que flutuam são etéreas, de um colorido espiritual, enquanto que a dos personagens é algo mais “real”. Depois, é o rapaz que passa a fazer parte deste mesmo colorido etéreo.

Não há necessidade de procurar sentido literal no que aconteceu com ele. Basta saber que seu corpo passou a integrar aquele outro mundo e, quando fez isso, virou a presa de um tubarão. Seu pai, no chão, pôde apenas assistir à sua morte, sem fazer nada – afinal, ele estava ainda no plano físico. Ele ainda “era ele”, em seu corpo material.

De certa forma, a animação Noite de Pescaria nos mostra como ainda fazemos parte desta teia alimentar. Não estamos no topo de uma cadeia, como insistimos em acreditar. As únicas coisas que nos permitem continuar “dominando” é a forma como nos organizamos socialmente, a maneira que nos protegendo da força da Natureza e unimos nossas forças para vencer desafios maiores.

Quando estamos sozinhos e nus (uma nudez figurativa, sem os aparatos que criamos para nos proteger) voltamos a fazer parte do todo e, como tal, não nos resta nenhuma soberania. Assim como matamos facilmente um frango para o jantar, um tubarão poderia nos consumir como se não fosse nada de mais.

Para nós, seria sofrimento, dor e morte. Para a criatura predadora, é apenas mais uma refeição.

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Love Death and Robots, episódio: 13, Número da Sorte

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Não por acaso, este é o 13º episódio da antologia de animações. Ele brinca com essa nossa superstição a respeito de um número ao colocar uma nave como sendo um “caixão com asas”.

Mais uma vez protagonizado por uma mulher de forte personalidade e de grande coragem, este episódio nos coloca, eventualmente, no ponto de vista da própria nave. Sabemos que máquinas não estão vivas, mas… e se estivessem? Aqui, a nave que sofria preconceito por ter sido vítima duas vezes de uma tragédia encontra uma piloto novata que não tem outra escolha a não ser pilotá-la.

Aqui podemos colocar em dúvida as causas dos resultados das missões passadas, onde pessoas morreram na nave 13: será que o infortúnio se deu por incompetência de quem a pilotava? Seria por falta de afinidade da nave pela(o) pilota(o) anterior? Ou seria mesmo o que tanto dizem: puro azar?

Com sinais claros de que a nave tem vontade própria, podemos realmente pensar nisso ao assistir 13, Número da Sorte.

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Love Death and Robots, episódio: Zima Blue (Azul Zima)

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Esta animação 2D é bem moderno, lembrando bastante este novo estilo de desenho com traços espessos, simples e com cores fortes. E caiu muito bem para a história, que conta sobre um simples robô que sofreu tantas alterações a ponto de se despersonalizar e esquecer quem realmente era. Esquecer-se de seu verdadeiro propósito.

Em Zima Blue, ou Azul Zima, podemos nos enxergar no artista Zima. E não falo apenas de “nós” individualmente, mas “nós” como sociedade. Tal qual Zima Blue, fomos nos rodeando de tantas “melhorias” externas, criando tantas tecnologias para nos alçar cada vez mais ao que chamamos de futuro, que o essencial foi ficando cada vez mais para trás. Estamos esquecendo nossas origens (refiro-me ao lado espiritual) e olhando cada vez mais para o grandioso e gélido “futuro” de um nada com muita matéria e pouco do etéreo da vida (afinal, o futuro não existe… tudo o que vivemos é o presente).

E, exatamente como Zima Blue, nos sentimos cada vez mais vazios, como se algo estivesse faltando. Há uma peça dentro de nós onde nada mais se encaixa, não importa o quão grandioso sejam nossos feitos. Foi apenas quando Zima Blue se desfez de toda essa carcaça e voltou a ser o que era é que sentiu-se completo novamente.

Trazendo isso para nossa realidade, talvez a mensagem desta animação seja para resgatarmos mais uma vez nossa simplicidade, o olhar sonhador de criança que tínhamos e que nos trazia encanto nas coisas simples.

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Love Death and Robots, episódio: Ponto Cego

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Apesar de os ciborgues terem usado um ponto cego do carregamento para iniciarem o assalto, eles próprios também tinham uma carta nas mangas: o backup de suas consciências (lembrei de Altered Carbon nessa hora). Esse conceito é também outra forma de pensar no “ponto cego”, pois os adversários deles os destruíram sem realmente os destruir. A gangue de ciborgues estava usando o “ponto cego” duplamente.

O ciborgue novato era o único que não sabia disso. Caso algo acontecesse com ele, talvez realmente não tivesse um retorno. Acontece que precisávamos de um personagem “ignorante” na situação para nos ligarmos (é uma necessidade da narrativa, para que funcione). E como a história transcorreu de forma que acompanhássemos os passos do novato de perto, era evidente que ele também não poderia saber sobre os backups, já que isso fazia parte do ponto de virada da história (plot twist). Era a intenção dos criadores que sentíssemos a mesma lamentação que o novato para que a história tivesse o pico de reviravolta no fim.

Vendo isso e pensando em Altered Carbon (a forma como os seres humanos criaram uma maneira de fazer backups de si mesmos), e pensando em tudo o que a ciência da criogenia tenta fazer (e até os alquimistas, com a pedra filosofal nos milênios passados), temos a clara pista de como este desejo de imortalidade é um dos sonhos de consumo da humanidade. Sempre pensamos no que poderíamos fazer se pudéssemos prolongar mais a existência deste corpo.

Ao voltarmos e vermos os resultados catastróficos dos outros episódios, talvez pensemos duas vezes…

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Love Death and Robots, episódio: Era do Gelo

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De todos os episódios da antologia, este é o único feito em live action. A parte da computação gráfica foi reservada para o interior da geladeira do casal.

No episódio Era do Gelo vemos uma reprodução da evolução da sociedade humana onde cada minuto para nós é uma passagem de cerca de cem anos para eles. Inicialmente essa evolução foi demorada, passando da era do vapor à era da eletricidade, e assim por diante. Quando chega no ponto de nossa atualidade (marcado pelo comentário do casal sobre um Starbucks) a coisa começa a acelerar. E não falo do tempo corrido, e sim da curvatura do desenvolvimento tecnológico.

É nosso momento atual. Novas tecnologias são inventadas, os computadores estão cada vez menores, mais potentes, e novas fontes de energia são pesquisadas para suprir a crescente escassez do petróleo. Os prédios ficam maiores, mais tecnológicos, e por fim vemos uma construção que está além de nosso tempo e que sequer compreendemos. Algum portal, talvez? Alguma fonte inesgotável de energia? Não importa. O que sabemos é que, seja o que for, é um nível de evolução material ao qual ainda não alcançamos (mas que pode não estar tão distante). Após isso, acontecem as descobertas fora do refrigerador, ou seja, eles saem daquele espaço limitado que consideravam como única realidade e transitam para o lado de fora do freezer. Isso representaria as descobertas além do que a astronomia já desbravou. Talvez os contatos com extra-terrestres fiquem mais evidentes e mais corriqueiros, e por aí vai.

Até que, finalmente (e mais uma vez), nossa fome pela incessante descoberta leva a algum erro de cálculo e tudo desaparece. Deste ponto em diante, o episódio da Era do Gelo mostra a volta dos dinossauros, do homem primitivo, e então sabemos que tudo começará novamente, voltando à estaca zero.

Aqui cabe um pensamento: o problema não é a evolução em si. É a velocidade com que isso acontece. Não foi por acaso que tudo o que vimos no freezer do casal estava acelerado. Em partes, porque os roteiristas precisavam que isso ocorresse rapidamente para caber num episódio. Mas o motivo simbólico disso é mostrar o quão acelerado estamos, principalmente a partir do século 21, em que sequer temos tempo de degustar as novidades e logo vem mais por aí.

O ritmo acelerado não está apenas na evolução tecnológica, mas também em nossas vidas, em nossos hábitos, em nossos pensamentos. Neste caso, podemos ver o refrigerador como nós mesmos, e o freezer como nossa cabeça. Tudo acontece de forma acelerada, levando a ideias incríveis mas, se não dermos um tempo, aquele excesso de energia irá nos consumir.

Uma outra teoria que acabei criando (mas acho que não passa de doideira de minha cabeça) é que muitos dos episódios que assistimos podem ter acontecido, originalmente, dentro do refrigerador. É apenas uma ideia… Diga nos comentários o que acha.

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Apesar de se saber que a espécie humana não caminhou contemporaneamente com os dinossauros, o episódio Era do Gelo fez um paralelo alternativo aqui onde a segunda “chance” da humanidade tivesse sido dessa maneira.

 

Love Death and Robots, episódio: História alternativa

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Confesso que este foi o episódio que menos me chamou a atenção. Não pela animação em si (que é de qualidade e num estilo divertido), mas pelo conteúdo. Creio que possibilidades mais plausíveis poderiam ter sido exploradas para que a mensagem fosse passada.

De qualquer forma, a mensagem do episódio História Alternativa ficou bem clara: não é uma mudança num fato do passado que terá o poder de salvar nosso presente ou futuro. É muito comum em rodas de conversas surgir assuntos como “e se tal coisa nunca tivesse acontecido?”, e daí partem suposições de como o mundo seria um lugar melhor se tivesse acontecido “x” em vez de “y”.

A animação escolheu Adolf Hitler por ser uma personalidade indiscutivelmente cruel, sádica, e que causou uma ferida dolorosa na história do mundo. E, apesar de serem suposições voltadas para o humor (sombrio mas, ainda assim, humor), percebemos que um único homem não é capaz de ser responsável por todas as mazelas da humanidade.

Nós temos nossos próprios meios de nos destruir, e fazemos isso a cada dia que passa, de formas sutis, caminhando para um suicídio indireto e silencioso.

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Love Death and Robots, episódio: A Guerra Secreta

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Outra vez vemos criaturas invadindo nosso lar. O mesmo questionamento do episódio “Proteção Contra Alienígenas” me veio à mente: seriam extra-terrestres? Ou uma criatura que se desenvolveu em nossos próprios esgotos e laboratórios, fazendo com que perdêssemos o controle da situação?

Os seres humanos caminham naturalmente para a superioridade de seus atos (não é uma crítica, é uma observação… nada mais natural do que desejar isso). Em toda a história evolutiva de nossa espécie, sempre procuramos o topo da cadeia alimentar, sempre criamos novas técnicas para nos proteger do “mundo lá fora” e nos tornar senhores de nosso mundo.

Esta animação novamente nos leva a uma posição inferior com relação à outra espécie e levanta um questionamento sutil que foi construído ao longo de todos estes episódios do original Netflix Love Death and Robots: será que estamos prontos para nos virarmos sozinhos? Será que aguentaríamos uma invasão agressiva de uma espécie com tecnologia e conhecimento superiores aos nossos?

A resposta, creio, é desanimadora.

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Conclusão sobre as teorias e finais de Love Death and Robots Netflix

Algo que acabei não comentando nos episódios acima mas foi notável é a visibilidade que as minorias ganharam aqui (num ponto de vista dos estados unidos, mas se encaixa bem demais em nosso país): mulheres, negros, LGBT… E tudo isso sem o costumeiro estereótipo que vemos por aí. Sendo tratadas como o que são: pessoas. É um detalhe que não passou despercebido.

Agora, sobre o tema principal que permeou a antologia: em várias animações os humanos foram retratados em lugares desfavoráveis da cadeia alimentar, ou seja, em posições de presas. É uma tentativa de nos colocar no lugar de outras criaturas e, quem sabe, passarmos a respeitar mais não apenas a fauna, mas a flora. Respeitar a Natureza da forma como deve ser respeitada, sem nos colocarmos acima de tudo como deuses e senhores de nosso próprio destino.

Não apenas na antologia de animações de Love Death and Robots, mas nos próprios noticiários, quando vemos desastres que acabam com populações inteiras a Natureza nos mostra que, por mais que tentemos domá-la, é ela quem está no controle. Nós temos apenas uma ilusão de que sabemos o que estamos fazendo pois, quando a coisa aperta pra valer, somos tão frágeis e suscetíveis quanto qualquer outra criatura que caminhe sobre o planeta Terra.

… E assim terminam as minhas teorias sobre os episódios de Love Death and Robots. Lembrando que este post não tem respostas absolutas, apenas ideias para gerar reflexão. Se possível, coloque nos comentários as suas conclusões também. 🙂

love death and robots netflix icones

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Trailer e informações da antologia de animações Netflix Love Death and Robots

Sinopse Netflix: Laticínios com consciência, soldados lobisomens, robôs fora de controle, monstros do lixo, ciborgues caçadores de recompensas e demônios sedentos de sangue – tudo isso em dezoito curtas de animação NSFW.

Duração dos episódios: Variam de 6 a 17 minutos;

Classificação etária: 18 anos;

Ano de lançamento: 2019;

Gênero: Ficção científica, Terror, Steampunk, Cyberpunk, Subrenatural;

Teorias Love Death and Robots Netflix: Explicações dos 18 finais

A antologia de animações Love Death and Robots confundiu algumas pessoas com seus 18 episódios. Veja aqui EXPLICAÇÕES para os finais e teorias.

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5

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Sobre o Autor

Lyan K. Levian é contista e romancista de histórias homoafetivas e homoeróticas, principalmente com foco no público que se denomina "fujoshi" e "fudanshi" (fãs de yaoi/boys love). Conheça os trabalhos de Lyan: www.lyanklevian.com

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