Nada a Esconder Netflix – Verdades e Mentiras, o que aprender com o filme?

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Este post contém spoilers do filme Nada a Esconder, original da Netflix (que você pode ver aqui), e se você ainda não assistiu e não quiser revelações do final, recomendo ler a resenha sem spoilers que fizemos neste artigo.

O filme Netflix Nada a Esconder nos mostra muitos exemplos interessantes sobre o jogo social que fazemos, do qual é recheado de mentiras como, por exemplo, conforto e proteção. Pretendo escrever livremente sobre elementos que podem exemplificar ou justificar alguns comportamentos vistos no filme.

A mentira é uma cama de plumas reconfortante. Mentiras sempre levam para um tipo de conforto e parece ser algo normal na manutenção de relações de todo tipo. Amigos, irmãos, pais, parentes, cônjuges… E por incrível que pareça, em muitos casos é a verdade que realmente destrói relacionamentos. Seja ela dita francamente e sem mentiras ou descoberta depois de uma mentira.

No exemplo da cena de gravidez da amante do Thomas (interpretado por Vicent Elbaz), mesmo se ele tivesse revelado sobre a amante logo no começo, o relacionamento iria acabar. Caso Thomas não falasse nada à respeito da amante para Léa (interpretada por Doria Tillier), o relacionamento se manteria intacto. Porém assim que ele soube da gravidez da amante e avisou a esposa, essa informação também foi capaz de destruir seu relacionamento.

A verdade sobre a raiz de tudo isso, no caso de Thomas, é um honesto impulso interno de se aventurar em outro relacionamento sem perder o atual. E se Thomas falasse para Léa, desde o início, de sua profunda vontade de se aventurar com outra pessoa? Poderia gerar inúmeros sentimentos negativos nela, principalmente a rejeição. Esse tipo de honestidade consigo mesmo é uma verdade dura, fria, e que precisa ser reprimida para não gerar o ato da traição, ou escondida com mentiras caso isso fosse consumado.

Humanos…

A verdade é fria

A verdade nunca pode ser manipulada, mas a mentira sim. Então ela pode ter o formato que quiser, a conveniência que desejar, e serve a todos nós que adoramos ter o controle em diversos níveis.

O simples fato de Ben  (interpretado por Grégory Gadebois) não ser convidado para o futebol (ao ser excluído do recebimento de mensagem de aviso) é uma mentira que tende a dar “conforto” aos amigos, que não precisariam se expor em dizer a verdade sobre o motivo de não o quererem no futebol. Como todos acham que Ben ficaria chateado com a verdade, tomaram essa mentira como sendo um favor de conforto a ele. Uma mentira manipuladora com intenção de não gerar desconfortos para ambos os lados.

Mesmo os mais humildes ainda necessitam de algum tipo de controle sobre algo. Sabe aquela necessidade de se aceitar como é, e finalmente conseguir dizer que não está a fim de ser parte do casal de padrinhos do casamento de um irmão? Pois então… Uma simples sinceridade deste tipo é capaz de, às vezes, acabar com uma relação fraterna ou mesmo gerar a fermentação de uma mágoa por parte dos noivos rejeitados.

A busca de verdades muitas vezes é por conta de conveniência em reforçar algo que queremos. Seja uma desconfiança teimosa sobre algo, ou até encenação de imagem de pessoa íntegra e sincera (mesmo sabendo que traiu e continua traindo o cônjuge).

Achei interessante a ponderação sobre verdade e mentira do vídeo abaixo:

Vincent e Marie: o casal de médicos

O casal de médicos anfitriões do filme Nada a Esconder são Marie (interpretado por Bérénice Bejo) e Vincent (interpretado por Stéphane de Groodt). Vincent é cirurgião plastico e Marie é psicóloga. Ambos têm uma filha chamada Margot (interpretada por Fleur Fitoussique) que revela muito sobre o casal pela forma como os trata.

Marie se enquadra na personagem de psicologa insegura e com descontrole emocional. Ela é a estourada da relação, e isso gera ciume e desconfiança o tempo todo, afetando principalmente seu relacionamento com a filha.

Já Vincent parece ser mais maduro emocionalmente e sabe lidar melhor com as emoções. Com essa paciência e controle ele conquistou bravamente a confiança de sua filha adolescente, e impressiona a todos (nós e os personagens de Nada a Esconder) dando um grande exemplo de pai com a cena que você verá a seguir…

Cena de exemplo de um grande pai

Numa das cenas que mais me chamaram a atenção no filme Netflix Nada a Esconder, Margot liga de uma festa para o pai, que está no jogo proposto de expor todas as conversas de celular durante aquele jantar.

Não sabendo que está falando em viva voz para todos da mesa ouvirem, ela mantém com o pai o seguinte diálogo:

Vincent: Oi querida. Tá tudo bem?

Margot: Ta sim. Hã… Eu posso falar com você?

Vincent: Pode, eu to ouvindo.

Margot: Hã… Eu… não sei como fala isso, mas… Os pais do Tristan não estão em casa hoje. E… ele quer que eu vá para a casa dele, depois da festa. Só nós dois. E, você… Você entendeu? Pai?

Vincent: E o que é que você acha?

Margot: Hãã… Eu não sei o que fazer. Porque eu não ‘tava esperando isso. Não hoje, pelo menos. E… o problema é que, se eu falar que eu não quero ir, as coisas podem ficar estranhas. Então… O que é que eu faço?

Vincent: Se você tá pensando em ir só para não ficar estranho, então não vá. Você tem que querer.

Margot: Eu não sei o que fazer. Hoje de manhã, quando você deu a caixa de camisinhas, eu… fiquei bem sem graça.

Vincent: É, mas não significa que você precisa usar hoje.

Margot: Não, mas… Eu acho que você sentiu. E a mamãe nem reparou, como sempre. Pai?

Vincent: Oi, querida.

Margot: O que é que eu faço?

Vincent: Olha, não é fácil para um pai dar conselho pra filha sobre uma coisa tão importante. Se dependesse de mim eu falaria para não fazer nunca, e ser a minha garotinha para sempre. Mas isso é impossível… Você precisa decidir sozinha. Você nunca vai esquecer este momento, então ele tem de ser bom! Pode parecer cafona, mas… Você só tem uma primeira vez. Então se no fundo você não tiver certeza, não vá. Vão ter outros momentos.

Margot: É… valeu pela ajuda. A mamãe só teria gritado comigo. Ela nunca entende nada, ela nunca me escuta.

Vincent: É claro que ela te escuta filha… É que não é fácil pra ela, também. Às vezes ela sente que você também não entende ela.

Margot: Eu acho que você não percebe que ela é chata porque você ama muito ela. Tá, ele chegou. Vou desligar.

É ou não é incrível uma adolescente confiar assim em um pai ou mãe para conversar sobre sexo? Ao meu ver, Vincent só deve ter conseguido isso por não usar agressividade ou autoridade em quase nenhuma situação com Margot. Isso faz com que os mecanismos de defesa da filha não sejam disparados. Ela acaba o vendo como um amigo, e não como um inimigo de quem tem que esconder algo.

Todo ser humano acaba sempre mapeando terrenos dolorosos, e isso acontece naturalmente, sem que notemos. Se qualquer um de nós sentimos dor (mágoa, indignação, etc) de alguma repressão ou rejeição, a memória disso será guardada relacionando essa dor a algum gatilho (o motivo inicial da dor). Às vezes, essa relação de dor é com algum tema em específico (podendo ser sexo, dinheiro, relacionamento…). Ou pior, é quando é relacionado ao ato de pedir ajuda a alguém, dependendo das reações dessa pessoa. Isso é capaz de fazer com que relacionemos muita dor ao ato de solicitar ajuda, podendo assim limitar o pedido a apenas algumas pessoas ou, em um cenário pior ainda, estender isso a todas as pessoas.

O distanciamento de relações não ocorre por acaso. Sempre há um motivo, e saber sobre eles exige muita investigação. Um exemplo é o medo de Ben sobre se assumir até para os amigos mais próximos.

Medo da Homofobia

No filme Nada a Esconder, Ben é gordinho, meigo e carismático. Ele é professor de Educação Física e tem um forte senso de honestidade e atração por homens. Apesar de mentir e esconder, ele sente a necessidade de fazer a coisa certa. Mas tem dificuldade de se impor, por isso fica muito incomodado quando sabe que está enganando alguém ou quando tem algo errado.

Como existe uma dificuldade muito grande em se impor, muitos segredos o corroem por dentro, e isso remete ao perfil frágil e culposo que ele tem, sempre meio curvado e de olhar cabisbaixo. É como se estivesse se maltratando muito pela culpa das coisas que reprime em si.

Existe, sim, muita gente “honesta” e covarde. Essa covardia gera uma guerra interna onde a regra é esfolar a si próprio. Não é à tôa que falam que o nosso pior inimigo somos nós mesmos, e isso se aplica muito no caso deste personagem de Nada a Esconder. O fato de ele ser gay é algo que ele considera “errado” pelo mero medo em assumir. Se internamente ele considerasse certo ou seguro, não haveria problema em revelar aos próprios amigos, mas sua auto estima é bem baixa justamente pelo histórico de auto flagelação.

Tem uma hora que Ben critica a sociedade pela exigência de se ter filhos para ser feliz, e essa critica acaba sendo um desabafo indireto. Afinal, por ser gay ele não considera necessária a conveniência de um filho para encontrar a felicidade. Ele falou com muita raiva, e isso porque odeia a pressão social sobre tudo. Ele sofre o peso de ser considerado anormal, e por isso ataca com fervor tudo o que é considerado normal pela sociedade.

Foi legal quando ele contestou a psicóloga, quando ela afirmou que “a homossexualidade dá sinal”, dizendo que não se aplicou no caso dele.

Pessoas com o perfil de Ben infelizmente são muito propensas a pensar no suicídio. Porque quando se engole muita coisa (e se machuca muito com pensamentos autodestrutivos), uma hora estoura. Ou para fora, ou para dentro.

Casal infeliz e mãe morando em casa

Marcos (interpretado por Roschdy ZEM) e Charlotte (interpretada por Suzanne Clément) são um exemplo de casal frustrado em Nada a Esconder. Não conseguem se satisfazer um com o outro, e ambos buscam aventuras eróticas virtuais sem se comprometerem fisicamente. A contenção desse casal é evidente, porém mais forte em Marcos (que é um repressor da esposa, e vítima da própria mãe). Sua mãe o domina e, como quase todo filho, ele acaba dando ouvidos às suas vontades (as vezes de forma inconsciente). Existe em nós uma força invisível que constantemente busca aprovação, principalmente dos pais.

Charlotte encontra-se a ponto de explodir. Parece que ela é a que mais sofre as pressões, e percebemos seu desprezo pelo marido em diversos comentários. Se não fossem pelos filhos, talvez não seria concebível ela permanecer neste relacionamento. Ter permitido de alguma forma a sogra morar em sua casa foi seu maior erro. Possivelmente, isso começou com a proposta de economizar com babás. E como toda sogra mima seus netos, foi se apossando aos poucos tornando-se um monstro controlador.

Um filho que faz todos os agrados da mãe, passando a mão na cabeça para comportamentos que agridem sua esposa, é o mesmo que ser um algoz. Marcos sabe que sua mãe é insuportável, e ele mesmo vive reclamando dela aos amigos, mas não gosta das criticas de sua mulher contra ela. Como se Charlotte fosse obrigada a aquentá-la pelo “bem” que ela está causando na ajuda da criação dos filhos. Essa é uma fórmula de corroer um relacionamento lentamente, e explica muito as escapadas de ambos no enredo de Nada a Esconder.

Marie, como psicóloga, diz que viver em proximidade com a mãe gera um efeito broxante que é logo confirmado por Charlotte. Em certo momento, Marcos diz que come de tudo, mesmo com diversas restrições, e é quando sua esposa aproveita a deixa para falar em deboche “Tudo que a mamãe faz né?“.

Esse é um exemplo de que pessoas próximas, sejam pais ou parentes, podem gerar grandes crises dependendo da personalidade quando se começa a morar sob o mesmo teto.

O final do filme Nada a Esconder

Achei legal a ideia de realidade paralela no final, porém ficou muito no ar se a resolução foi algum efeito sobrenatural do eclipse, ou se o que aconteceu foi uma mera projeção do que seria, caso o jogo fosse de fato aplicado.

Tem uma coisa que Vincent diz no final que é um conselho sábio: “É melhor deixar algumas coisas em segredo“. E, logo no finalzinho, pensei por um momento que Ben iria pular da ponte (risos… mas de nervoso).

Em geral, Nada a Esconder é um filme que, mesmo se passando inteiramente num único cenário, a jornada é interessante, mas frustra um pouco na conclusão. A ideia de que todos querem transparência é um mito ridículo (como pudemos ver no vídeo que passei mais acima). Esse mito parece real apenas pela mera necessidade do Ego controlar o ambiente em que se passa sua vida. Sendo assim, muitas vezes uma verdade dolorosa destrói coisas, mas dá ao individuo o controle real (e não ilusório) do que está acontecendo.

No fim das contas, para poder conviver em sociedade você acaba se vendo obrigado a mentir todo dia. Desde aquele simples “está tudo bem” respondido mesmo quando estamos mal, até mentiras mais cabeludas. Então saiba: uma hora alguém pega alguma mentirinha sua e te marca.

E ai? Você se considera transparente a ponto de nunca contar uma mentira? Se sim, talvez tenha dificuldade em se relacionar. Infelizmente as pessoas são como vidros que se quebram facilmente. E a verdade, em vez de ser como uma cola milagrosa para consertá-las, é na verdade um fator que esmigalha os cacos ainda mais.

Deixe seus comentários sobre o que achou deste filme. Queremos saber suas impressões sobre essa máscara que todos nós vestimos perante o mundo.

Você também pode gostar dos posts explicativos sobre Noite de Lobos, Aggretsuko, O Vazio, Attack On Titan (Shingeki no Kyojin) e o anime boys love Dakaichi.

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Sobre o Autor

Administrador do blog Interprete-me, Jerry D. Blodgett tem paixão pela literatura subjetiva e os estudos da filosofia e psicologia. Sempre que possível, faz pontes entre a reflexão interior e o entretenimento.

15 thoughts on “Nada a Esconder Netflix – Verdades e Mentiras, o que aprender com o filme?

  1. Marie e Thomas são amantes tbm ( a cena do brinco que ele deu pra suposta amante , sendo que nao foi , pq assim que Marie descobriu , ela deu um tapa nele e devolveu os brincos )…. Além de todo o contexto da história poderia ser explorado essa relação dos dois… ficou em aberto!

    1. Obrigado pelo seu comentário Milena, com certeza eu gostaria muito que o filme desse mais detalhes sobre essa relação mostrada bem indiretamente pelo brinco. Thomas é uma cobra mantendo relação tripla e ainda pegando a mulher do amigo. Não é a toa que no final só do fato do Vicent encara-lo de cima da sacada já foi o bastante para deixar Thomas sem jeito.

      Obrigado pela ótima contribuição do detalhe dos brincos. 😉

  2. Uma dúvida que me deixou bastante intrigado é: Se o Ben, insinuou que foi demitido pelo fato da escola querer colocar uma profissional mais jovem no seu lugar, bem como um com porte mais atlético, fazendo-o praticar aqueles exercícios na frente dos amigos para reafirmar que sua demissão tem a ver com sua idade e aparência física, isso torna o final do filme um pouco mais aberto, já que neste final paralelo ele estava em seu carro e mesmo assim parou para fazer as atividades, dando a entender que a sua demissão foi de fato por estar acima do peso/idade. Concluindo que Ben não foi demitido por ser “descoberto” gay por seus amigos de trabalho e sim por estar “fora dos padrões”.
    Ps: Não sei se é muito viagem minha, mas esse final me deixou um pouco confuso quanto a veracidade das histórias relatadas no filme.

  3. Boa tarde

    Assisti o filme, realmente é um despertar para nossas ações diante das redes sociais e diante de nossa familia e amigos, só fiquei em duvida se foi só uma suposição se caso eles deixasse o telefone sobre a mesa? pois no final acaba tudo bem, como se nada tivesse acontecido.

    1. A brincadeira não ocorreu, mas o filme mostrou a verdadeira vida escondida de cada um, em uma simulação do que se teria descoberto se o jogo tivesse acontecido.

    1. Rafaela, o Thomas tinha atendido uma ligação de uma joalheria em que a moça perguntava sobre um par de brincos que tinha comprado (a Léa, percebendo que não tinha recebido, pensou que ele tivesse comprado para a amante). Então, depois de descobrir que ele iria ser pai do filho da sua amante, vemos uma cena de Marie tirando os brincos, o que dá a entender que ele também tinha uma relação com ela.

  4. Eu entendi que era um universo paralelo, pq no final o Thomas e a Lea ficam de boa, inclusive apostando corrida para ver quem chegasse primeiro no pilotis, como fizeram no início, e a Margô fala em namorada para o Ben, que ele fala até o nome, Julie. Sem falar que a Marie tinha tirado o brinco e devolvido ao Thomas, e no final aparece na varanda com os brincos, que só no final os retira e coloca sobre o móvel.

  5. Amei esse filme e amei o seu artigo, eu não tinha pegado a referência do brinco mas eu sabia que tinha alguma coisa importante naquela cena do tapa e do enquadramento no brinco 😀

  6. Ótimo filme! Transita do humor para o drama com maestria! Dei o play sem muita expectativa, mas me surpreendi positivamente.

  7. Excelente filme, com roteiro brilhante e atores extraordinários. Tragicômico como poucos e com final surpreendente.
    Trata-se de filme em que todos saem da sala com um leve sorriso nos lábios, como se dissessem: aprendi algo …

  8. Eu simplesmente adorei o filme e o final não tinha entendido direito então vim navegar para ver se achava algo. Entendi. Realmente a parte onde todos pedem para colocar o celular na mesa e jogar o jogo ficou um pouco artificial. As histórias são maravilhosas. E foi pra mim o que aconteceria caso feito o jogo. Tipo o último filme do crepúsculo onde maior parte do filme se passa com coisas que não aconteceram mas poderia. Simplesmente fantástico!

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