O Vazio do Domingo – Poema descritivo do Filme Netflix

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Jerry

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On 25 junho, 2018
Last modified:2 outubro, 2018

Summary:

O Vazio do Domingo é um filme original da Netflix com uma melancolia paralisante, e que passa de fato uma sensação opressora de vazio.

O Vazio do Domingo é um filme original da Netflix com uma melancolia paralisante (assista na Netflix), e que passa de fato uma sensação opressora de vazio.

Para falar dele, optei por um poema, já que uma mera dissertação não alcançaria o cerne emocional que esta história tocou em mim. O ponto de vista é o da mãe:

(atenção, contém spoilers do filme Netflix O Vazio do Domingo)

 

Poema em vídeo


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Poema do filme O Vazio do domingo

O Vazio de uma Mãe Ambiciosa

 

Eu busquei o melhor. Corri atrás da cenoura incansavelmente.

Injusto!

Fiz até todos os sacrifícios possíveis! Abandonei filha e marido, menti, ocultei, fingi, controlei… Mas nada me gerou o prazer da degustação. Tudo o que julguei ser saboroso não estava no presente. Sempre correndo atrás do futuro… Como eu poderia saber que ele se afastaria na mesma proporção em que corro?

Agora o passado me cobra o preço com muita culpa e cansaço. Você, filha que um dia joguei no lixo de minhas prioridades, me aparece pedindo uma coisa tão simples que chega a paralisar. Poderia pedir qualquer coisa, inclusive fortunas que acumulei, mas queria apenas dez dias do meu tempo. Meu surrado e frustrado tempo! Pensando agora, isso foi tudo que não pude dar nem a mim. O presente só me ensinou a correr, e chutar para frente.

Agora, aqui em sua casa, que de tão isolada e simples é onde finalmente encontro o sabor do presente. Jamais imaginei que paciência seria um portal de revelação do agora. Como doí o preço de nossas ações! Como doí o que deixamos de escolher! Talvez a única forma de me sentir completa seja na morte… O vazio é uma realidade difícil de aceitar. Preenchemos com expectativas, sonhos, promessas. Porém, mesmo na realização, o vazio se apresenta. A sede nunca cessa.

Neste momento quero lhe dar tudo que não dei, mas não consigo. Não consigo sequer me encher de sua presença. Você está aqui, mas ainda o vazio parece gigante, não sinto que consigo degustar o quanto eu preciso. Tudo passa por entre os dedos, como se tudo fosse estreitado a um funil de gotas. Tanta sede, mas tanta sede, para extrair apenas gotas? Que maldição é esta que chamamos de vida? Talvez por isso precisemos do passado para conseguir extrai mais gotas que o presente não permitiu. Deve ser esse o segredo da nostalgia: um misto de perda e consideração melancólica por algo que ficou impresso na memória.

Será que a unica forma de acabar com o vazio seja simplesmente aceitá-lo? Por que é tão difícil desapegar do controle corpóreo? Não queremos perder a vida para a ideia de sentir de forma etérea, mas insistimos em sentir de forma limitada com nossos sentidos.

Eu finalmente entendo por que me pediu para fazer o que fiz no final destes dez dias. Jamais poderia preencher seu vazio de minha falta. Como um batismo, o que seria mais significativo que acabar com seu sofrimento de forma a extrair todo tipo de apego possível?

Uma foto é a captura de um momento. O último momento de todo ser humano deveria ser épico. Ou deveria ser preenchido de tudo o que mais lhe faltou. Será que é por isso que me escolheu? Eu precisava lhe conceder ao menos isso, não é? O pensamento corrosivo de culpa que isso causa é enorme…

Seria eu um monstro, ou um anjo?

Me julgar por qual critério?

No fim. talvez a maior provação do ser humano seja o desapego. Se aceitar sem condições. Aceitar o erro, aceitar a frustração, aceitar a degeneração. A luta pode ser válida em algumas situações… Mas qual luta lutar? A vida é unica, assim como cada decisão que tomamos também é. O momento em que se escolhe algo é quando se enterra inúmeras outras possibilidades. Voltar atrás é possível, mas o momento é outro. Quanto mais se volta atrás, mais se perde caminhos. Só é propagada a confusão em não conseguir dar dois passos sustentados por suas próprias escolhas.

Talvez eu ter te abandonado tenha tirado qualquer propósito. Tenha feito navegar entre inúmeros caminhos curtos. Um vazio devastador que clamou por um fim. Doença cruel instalada. Me doí profundamente pensar ser responsável por tudo isso. Gerei um ser, joguei no calabouço agonizando ao acaso. Não instruí, não acompanhei, não tratei feridas. Mal conseguia lidar com as minhas… O anseio pelo futuro me confortava à medida em que cegava.

O que fazer a partir de agora?

Resta me um grande e retumbante “Não sei”. Só me resta procurar um caminho para me perdoar.

 

Autor: Jerry D. Blodgett

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Trailer do filme Netflix “O vazio do domingo”

 

Sinopse 1: Uma separação de 35 anos. Um reencontro de 10 dias. Um pedido impossível. Certas feridas não cicatrizam com o tempo.

Sinopse 2: Décadas após ter sido abandonada quando criança, Chiara encontra sua mãe biológica e a convida para uma viagem de 10 dias a um lugar isolado.

Classificação etária: 16 anos;

Duração do filme: 1h 53min;

Nacionalidade: Espanha;

Gênero: Drama;

 

Você também teve a oportunidade de apreciar este original? O que achou do desenrolar disso tudo? Deu uma angústia ao final do filme? Gostaria que a história tivesse contado algo além? Como se sentiu?

Conte para nós, é interessante compartilharmos esses momentos.

O Vazio do Domingo é um filme original da Netflix com uma melancolia paralisante, e que passa de fato uma sensação opressora de vazio.

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Sobre o Autor

Administrador do blog Interprete-me, Jerry D. Blodgett tem paixão pela literatura subjetiva e os estudos da filosofia e psicologia. Sempre que possível, faz pontes entre a reflexão interior e o entretenimento.

6 thoughts on “O Vazio do Domingo – Poema descritivo do Filme Netflix

  1. O vazio de uma vida de mentira. Um presente cheio de momentos vazios de sentido, em que qualquer sentimento soará mentira. Um final tão gélido quanto o abandono do começo. A desesperança de quem viveu a expectativa de um instante de amor.

  2. Jerry,
    Gostei muito do poema que está nesta página. Sou professora e tenho interesse em tê-lo para aulas de luto. Como posso conseguir?

    1. Olá Maria, tudo bem? Pode copiar daqui mesmo e só peço para manter os créditos de referencia de autoria e do site. Fico feliz que tenha gostado.

  3. Assisti ontem, no decorrer da madrugada… entre ligeiros cochilos…(não era tédio, mas vista cansada)…até que despertei pelo que me pareceu, para um mergulho no drama “Mãe e filha”. Uma relação fundamental na estrutura psíquica do ser humano. Chiara, a filha, lembra meus excessos desta falta. Perdi minha mãe aos 19 anos, prum CA devastador, de útero (simbólico), embora já a tivesse perdido antes disso, bem antess… por sua instabilidade emocional decorrente da opressão de meu pai.
    Voltando ao filme… fiquei emocionada em várias passagens, sobretudo na beleza que têm os sentimentos doídos que carregamos na alma. Chiara é doce, sua mãe também. Ambas são de uma força indescritível, embora opostas. A rebeldia e a melancolia de Chiara me comovem até agora.
    Fiquei intrigada com aquele final. Da esfera simbólica para o plano material, a água como fonte de vida, parece que ali, ela renasceria, “sem medo”, como disse. A nudez, sobretudo da mãe, era a verdade de ambas. Mas que (sobre)vida teria a mãe, depois de ter vivenciado essa experiência?! Fico intrigada. Seu rosto ao olhar a casa, me ocorreu ter sido um retiro ao lugar do passado e tudo não ter passado de suposições fantasiosas para redimir sua culpa. Uma mulher madura como ela já deve bem entender a importância da maternidade para seus filhos, a falta deste oficio, as crateras que os causam vulnerabilidades à vícios e relações infrutíferas e/ou abusivas.
    Um filme que ainda estou digerindo… cheio de beleza e dor. Como é a vida.
    Hoje é domingo. Minha casa com filhos, suas namoradas, e sem a minha mãe, embora com ela em pensamentos invasivos.

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